
Olá minha pequena criança da noite
Minha menina de olhos tristes e sonhos despedaçados
De lágrimas cristalinas
E de sorriso brando...
Fui arrancado de meu lar nos céus
Sobrevivi a minha queda vertiginosa
Despedacei-me sobre esse solo contaminado
Com minhas asas quebradas e sem poder retornar
Fui condenado a chamar essa nova terra
Terra triste e descrente de lar...
E é nessa terra obscena e perversa
De mortes e sofrimento
De amores irreais
Nessa terra doente
É que trilharei meu caminho...
E numa de minhas vigílias noturnas
Encontrei-a, talvez por acaso, enquanto recitava minha desgraça sob versos tristes, sobre o telhado que já foste uma moradia
E você aproximou-se de mim
Em passos lentos e notórios
Escondendo-se por trás do véu negro da noite
E seus olhos vermelhos a me observar
E eu, em silêncio, também a admirava por debaixo da luz da lua...
E o tempo passou, e todas as noites nosso encontro era inevitável
Nosso encontro marcado e mudo
Envolto a olhares e sussurros
E você tornou-se minha companhia agradável
Fizeste-me companhia nas noites frias de inverno
E quando dei por mim, nossas bocas já tinham se beijado...
E por várias noites seguintes, se fizeram iguais
Por muitas noites nos permitimos nos tocar
Por muitas noites nossa desgraça foste nossa maior bênção
Por muitas noites dividimos a mesma cama...
Nas sombras da escuridão
Encontrei uma luz branda e obscurecida
Uma luz tão branda e suave
E tão tomada pela maldade dessa terra
Amaldiçoada a vagar pelas noites frias da cidade do caos
E como pode, um anjo e uma vampira
A luz e a escuridão dividir a mesma cama?
Tomados pelo pecado e pela pureza
Sentir o céu e o inferno juntos...
A luz não poderá ser vista se não houver a sua sombra
E a sombra não existirá se a luz não se fizer presente
Mas nunca um tomará o lugar do outro
E jamais a luz será sombra por muito tempo
Dois pontos distintos, no caminho chamados destino
Somos diferentes demais para nos darmos ao luxo de amar
Temos muitos pedaços de nós mesmos espalhados pelas ruas
Para deixarmos partir mais ainda os resquícios de nossos sonhos
Para deixarmos um ferir ao outro
Temos diferenças demais para sonharmos
Somos dois mundos diferentes que jamais se tocarão
Mas que se completam...
Não! Não quero ir embora
Não quero despedaçar seus sonhos
Quero poder te amar, mesmo de longe,
Pois você, assim como eu
Entende a dor de ter seus sonhos destruídos
Viver pelo simples fato de manter-se de pé...
Mas que nossos momentos vivam eternamente dentro de mim
Pois não poderei tocá-la mais
E aceito minha sentença
Pois ainda sim
Poderei ter minha Vampira Sombria por perto...
