quarta-feira, 29 de abril de 2009

Um poema de Tania Mara de Souza


Chora a menina, lágrima convertida em triste prece
E lamenta pelos cantos o mal que o tempo tece
Os corredores tão escuros têm garras pegajosas
Seus passos se arrastam pela calçada
Sua face à ferro e a fogo está marcada
Seus dedos arranham paredes mofadas
Sente entre as unhas o bolor de horas malfadadas
Sua fuga sem destino ela reconhece
Seus passos trôpegos não a aquecem
Sem forças, sem movimentos, ela se acalma.
O medo, o frio, a solidão são suas companheiras.
O sangue da noite escorre sem fronteiras
Uma chaga aberta em corpo e alma.
Suas mãos tocam pele dilacerada
Letargia e dor, seu corpo cai
Um rumor de angustia, e ela grita:
Minha Mãe... Meus Irmãos... Meu Pai...
Somente o silêncio, a solidão dos órfãos
E ela murmura:
Meu Pai...... minha Mãe... Meus Irmãos....
Um resquício de amor a emudece
Um prenuncio de ódio a fortalece
Uma pedra pontiaguda a deixa armada
Calçada molhada... imunda ... a acolhe
Em sua frágil morada transformada
Anjos a sua volta se entristecem
Quando as negras sombras são agora aliadas
Vingança em meigos olhos todo sentimento tolhem
A chuva que congela os ossos já não lhe importa
A menina respira aliviada
O cálice da vingança sorve embriagada!
E sorri! Seu riso tem a força de sombrios malefícios
Sede fome e dor ignoradas
Uma promessa macabra realizada
Toda sede só será saciada
Com o sangue dos que tomaram sua morada
Sua família e alegre meninice perdida
O sabor da carne inimiga será sua sandice
Cada corpo que cair, um passo a liberdade
Estende as mãos sangrando à noite fria
Espectros aceitam sua presença sem guia
As sombras se agitam alvoroçadas
Risos gelados percorrem a noite assombrada
Gargalha o mal em áspera vitória
A mórbida aliança está formada
Os passos dessa vingança se formam
Nesta triste noite desgraçada!